"Por quê?"



"Por quê?" - Não faça desta pergunta uma arma, a vítima pode ser você!

13 agosto

Desperdício

Por que levamos anos para conhecer uma pessoa e, quando achamos que finalmente já a conhecemos, chega um vento, um fato, um dado novo, e nos mostra que o que conhecemos não passou de uma farsa mal-acabada? Isso,sim, é o que eu chamo de desperdício de tempo e de boas intenções...

Possibilidades

A vida levou quase tudo o que eu tinha e me largou assim, vestida apenas de memórias. Vai ver eu não nasci para ter, mas para ser. E, sendo, fica impossível o sequestro das histórias que imortalizei em mim.

Viver assim sem ambições e sem um lugar programado para depositar os desejos me aproxima cruelmente da liberdade. Sou uma miríade de possibilidades, sem a menor obrigação de acontecer.

Gostar

snoopy luvs woodstock
Gostar é verbo livre, simples e definitivo. A gente olha, a gente gosta e fim. Não precisa de porquês, nem de previsões, nem de instruções. Não é operação cerebral, intelectual ou qualquer outra que se deixe comandar pelos ditames da razão. Mas feliz de quem, nesse mundo programado para títeres assépticos, ainda pode, despretensiosamente, gostar de alguém ou de alguma coisa, sem associá-los a uma função perfeita, a uma relação de causa e efeito ou de competitividade. Gostar por gostar.

Nem sempre se pode ter o que se gosta, é verdade. Mas e daí? O gostar espontâneo não inclui a posse. Pode-se gostar sem desejar para si objeto da nossa simpatia. Gostar de vê-lo existir, simplesmente. É um sublime exercício de liberdade. Não é imperativo possuir aquilo que se gosta.

Canso de ouvir perguntas do tipo: "Mas o que você vê nisso?", "O que você vê nele/nela?". São perguntas desnecessárias, que eu, particularmente, nunca ouso dirigi-las a alguém. É impossível determinar o conjunto de fatores e motivações que revestem o "gostar" de alguém. Gostar não é um ato, não é uma decisão, muito menos uma imposição. Não importa se esse gosto é conveniente ou não, se é sensato ou não, se é profícuo ou não. Experimentar essa sensação, por si, já é uma forma de felicidade.

O que pode gerar frustrações, a partir de um gosto, é começar a perseguir a coisa/pessoa gostada, de modo a aprisioná-la em um contexto. As manifestações espontâneas da alma não devem ser conduzidas pela ideia de posse. A gente gosta de estrelas, de sol, de lua, de céu azul sem precisar possui-los.

Com o tempo, é natural que gostemos cada vez mais de menos coisas/pessoas. Não deveria ser assim. Mas é... Porque o tempo nos torna seletivos e acaba sofisticando, talvez, o complexo de fatores que interferem no gostar. O tempo, também, com suas repetições de fatos e fenômenos, nos faz ver que este ou aquele gostar equivoca-se, sendo muitas vezes um mero capricho ou uma fantasia confundidos com o livre gostar, desprovido de contaminações. Porém, por mais que o tempo estabeleça suas filtragens, ele nada pode contra esse sentimento, tecido com fios de liberdade e de despojados desejos.

Gostar é simples como um espirro, um aceno, um suspiro, um espasmo. O que complica o gostar é não gostar de gostar ou vedar essa livre sensação com expectativas em demasia. Cada gosto anda livre por seu próprio caminho, até criar sua história ou, após cumprir seu tempo de permanência, deixar de existir ou dar lugar a novos gostos.

Encontros e desencontros

Nenhum encontro acontece por acaso. Conseguimos explicar alguns, outros não. Mas, certamente, cada encontro tem sua razão de ser, até os mais efêmeros. Quanto aos desencontros, eles só passam a existir quando não respeitamos o tempo de duração de cada encontro ou quando não conseguimos compreender suas razões. Assim, para evitarmos um desencontro, é preciso contar com a sensibilidade de perceber o momento certo de partir. E partir é sempre tão difícil... Mas, ao entendermos que a missão foi cumprida, o melhor é bater em retirada para que encantos não se quebrem, para que as memórias sejam ternas e suaves como as boas canções, para que a passagem pelo outro permaneça especial e leve como cheiro de alfazema.

Às vezes, nossa missão num determinado encontro é tão somente a de ajudar o outro a sorrir, a se distrair de suas dores, a plantar uma flor no caos, a acender uma ou outra luz, até que a travessia para um novo ciclo seja feita. Insistir em ficar, ao percebermos que o outro já consegue sorrir sem a nossa interferência, que já pisa em terra firme e estabiliza seu universo, é bobagem. Já não seremos tão necessários. A missão foi cumprida e o encontro justificado. Levamos dele os bons momentos, as descobertas, os risos e o aprendizado compartilhados, além da certeza de que seguiremos mais crescidos. E, a despeito da dificuldade das partidas e das ausências, levamos ainda a dor feliz de saber que aquele que fica atingiu, enfim, seu ponto de bem-estar.

Permanecer no encontro, após o cumprimento de uma missão, só faz sentido se o outro mostrar, explicitamente ou não, a importância de se ficar mais um pouco - ou muito mais -, pois que não há nada mais sem sentido num encontro do que a sua desimportância.

Uma certa noite adentro...

Quantos séculos duraria aquela noite? Quantas noites e quantos dias estariam contidos nela? Tantos, talvez, quanto o número das estrelas que conspiravam no céu. Ao primeiro balbucio da manhã, partiria para sempre daquele lugar, daquela história, do amor em erros. Mas tinha antes que atravessar aquela noite - o infinito e lancinante intervalo entre o fim e o recomeço.

Tudo já houvera sido dito, chorado, acertado. Todas as súplicas e todas as blasfêmias lançadas ao ar. Agora gritava o silêncio, agravando a dor das rupturas e a hemorragia das paixões que se esvaem. E havia ainda uma noite inteira a ser cumprida, sem o benefício do sono ou do repouso. Olharia mil vezes para aquele semblante pela última vez, mil últimas vezes. O olhar de adeus é assim, feito de hipérboles.

Ele permanecia sentado na sala, imóvel desde a última sílaba pronunciada, como se houvesse partido de si mesmo. Há muito ela  não reparava em seus traços. "Como é bela sua expressão melacólica!...", pensou. E como as últimas horas da presença dele lhe torturavam! Da varanda, amaldiçoava as estrelas que cintilavam na noite, indiferentes à sua dor. Queria que tivesse sido tudo diferente, que aquela essa jamais tivesse acontecido. Não era o amor que partia. Era a sua impossibilidade que chegara, trazendo a certeza do 'tarde demais'.
Contemplou-o mais uma vez. Desejou que a noite a detivesse ali, prendendo-a àquele triz de olhar. Por não aguentar o silêncio de morte, ligou o rádio. A ironia do acaso tocava "The Look of Love". Não mais sabia onde colocar as mãos, onde se acomodar. Tornara-se estrangeira naquele lugar, antes tão seu. A noite parecia não ter fim. Malas feitas esperavam pelo dia, perto da porta.

Se ele pronunciasse "Fica!", tudo estaria perdido. E, por algum momento, ela desejou que tudo se perdesse. Mas ele nada diria. O verbo vinha à garganta e retornava ao estômago, que se revolvia em dor.

Ao romper do dia, estariam libertos do cativeiro imaginário. Ela atravessaria a porta com o primeiro passo para uma nova vida. Mas aquela noite nunca terminaria, a despeito do romper de todos os dias.

E as estrelas teimavam em brilhar indiferentes no céu. E a canção terminara de tocar. E toda a cidade parecia dormir. E o amor se cansava de amar. Numa certa noite adentro....

Sobre as paixões, esse tema manjadinho...

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O tema é pra lá de surrado. Mas há sempre o que se falar sobre esse tóxico chamado paixão, que já rendeu e continua a render belíssimas literaturas. Logicamente, quase todos os mortais já tomaram pelo menos uma dose deste veneno ao longo da vida. E das duas uma: ou saíram arrebentados no final, ou saíram desacreditados.

Não posso acreditar em sentimentos que atuam como um LSD nas veias, que cegam, que transformam o olhar para a realidade, entorpecem, que se realizam nas urgências. A paixão é bela em sua eclosão, bela como só o diabo sabe ser quando quer seduzir. E é poderosa. Desperta hormônios com violência, vontades nunca tidas, macrodesejos e prazeres descomunais. Em seu curso, porém, vai despertando paralelamente sentimentos e sensações destrutivas, ligadas à posse, à dependência, a ansiedades e inquietudes ensandecidas, a extremos condicionantes, paralisantes. E cegam, ensurdecem, emburrecem, aniquilam qualquer vestígio de lucidez. Por paixão, um ser desestruturado é capaz de matar ou morrer. Não, obrigada. Dispenso as paixões, que hoje entendo como disfunções fisiológicas que adoecem a alma (acho que Platão já afirmou algo nesse sentido). Obviamente, nenhuma juventude está livre delas. Na juventude, as paixões chegam a ser uma imposição, uma necessidade, até para que possamos reconhecê-las e adquirir imunidade aos seus estragos, mais adiante. Na maturidade, é dar a cara pra bater.

O estado de paixão é a antítese do amor. Amor é outra conversa. Aí há saúde, conhecimento e solidez, esperas serenas. Há entrega e desprendimento, há confiança, comunhão e paz. É sentimento que se constrói com o tempo, que não chega de impacto, não chega vestido com os mantos purpúreos e esplendorosos da paixão. É de uma nudez discreta. O discurso do amor fala das simplicidades, não usa hipérboles. Mas fala a verdade porque fala de amor. E o que é o amor senão o encontro de duas verdades que se complementam?

Libertar a liberdade

Em nome dela tudo fiz e tudo desfiz. São por ela todas as minhas lutas e bandeiras. Porque, sem ela, não se faz verdade. Sem ela, toda forma de ser se violenta, tudo é negação. Como pode haver desejo pleno em universos que usam algemas e cobranças? Não, não pode.

Mas o preço é alto. É sim... Muitas vezes me pergunto se o fato de andar de mãos dadas com ela não impede que segurem minhas mãos. Sim, porque em alguns ela provoca medo: o medo de ser. Não é fácil viver sem se prender aos manuais imaginários de "boa conduta". Vivo sem manuais, a sociedade não me determina, ou pelo menos não tanto quanto gostaria. Vivo por instintos, intuições, cheiros, faros, sabores, e pela livre manifestação dos sentidos, meus sentidos.

E meu único medo é perdê-la, medo de viver de ideias que não são minhas, amar amores que se deixam aprisionar e envelhecer. E, se para tê-la comigo, tiver de pagar o preço de eventuais solidões, incompreensões ou melancolias, assim será. Nada é pior do que a asfixia da alma, nada é pior do que deixar que nos roubem os royalties de nossa própria história. E eu quero escrever minha história sem interferências, ser capaz de, se preciso for, libertar, eu mesma, a própria liberdade.

Para quando parecer que o mundo acabou



Não dar ouvidos aos que dizem insistentemente: "Oh, também não é o fim do mundo!". Ninguém conseguirá lhe convencer do contrário neste momento. E, de certa forma, você tem razão. Pelo menos um mundo acabou. Após a hecatombe, a se dar conta de ter sobrevivido, já não será o mesmo de antes. Uma pequena (ou grande) parte de nós costuma morrer ali naqueles escombros de mágoa e descrença.

Viver a dor até o fim. Mergulhar até o limite máximo das profundezas internas, percorrer todos os labirintos, perscrutar todos os sombrios subterrâneos, deixar doer... A resistência ao sofrimento acaba por recrudescê-lo. Fica tudo pesado e rígido como correntes de ferro. Deixar-se cair, então. Ao tocar o fundo e perceber que dali não poderá passar, soltar a respiração. É imprescindível respirar bem para atingir a leveza do ser. Agora que já não há expectativas ou ansiedades, que detonaram uma bomba sobre o seu amanhã - ou pelo menos sobre o amanhã sonhado - fica fácil respirar pausadamente. É preciso cuidar para não se perder entre as perdas.

Fugir, não! Não é uma boa opção. Meter-se nas multidões, correr para um lado e para outro, movimentar compulsivamente o corpo, na intenção de espantar ou distrair a dura realidade não é recomendável. Afinal, você está sem mundo, vai se sentir um estranho no ninho, um sem-teto existencial. Além do mais, logo ali adiante vai dar de cara com a sua cara, e o resultado é a sensação de que apenas se prolongou um problema. No way out! Quando parece que o mundo acabou, não há fugas. O melhor a fazer é fugir das fugas! Começar logo o trabalho de desconstrução, antes que todos alicerces fiquem comprometidos.

Sair quebrando tudo pode ser a reação preferida de alguns. Há quem pense que esse tipo de expurgo faz bem. Não sei dizer ao certo. Os adeptos desta prática costumam afirmar que é salutar; argumentam que, diante de uma dor, a gente berra sonoros "ais" eu "uis" e libera os demônios. Realmente, não sei. Não é meu estilo transformar a vida em escândalo na hora da dor. Eu, particularmente, deixo os escândalos para alegrias e prazeres. Não me sinto bem quando quebro tudo numa crise nervosa, me vejo primária e canibalesca. Mas isto, como disse, é questão de natureza e estilo, um estilo que não é o meu. Aí é com cada um. Pulemos esta parte.

Por fim, depois de todo o percurso, subir à tona paulatinamente. Olhar o céu, o mar, as avenidas, as pessoas, e ver que o mundo não acabou. Há apenas um olhar diferente. Não, o mundo não acabou, e você já viu esse filme antes. Estará apenas um pouco exausto, depois da dolorosa jornada, para a complexa tarefa de construir um novo universo agora. Deixe isso para amanhã. Amanhã, a liberdade, a ressurreição. Amanhã...

É que eu pensei que...

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Eu pensei que...
Que importa o que eu pensei, se no final a gente embaralha pessoas, coisas e circunstâncias e dá tudo no mesmo? É o mesmo jogo, a mesma fórmula barata para os fenômenos da existência e seus personagens, que caem sempre num materialismo contumaz.

É que, às vezes, por não suportarmos essa ideia, a gente comete o erro de "pensar que" pode ser tudo muito diferente.

Mas, como costumo assinalar de vez em quando, com dois ou três "E daís?" a gente consegue desconstruir até a Teoria da Relatividade de Einstein, cuja língua pra fora, a zombar do mundo, tornou-se um registro histórico de impacto muito maior.

É que eu pensei que...

- E daí?

Desta vez é sério!

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Queria me levar mais a sério. Mas a vida me transformou nessa coisa meio desacreditada e blasée, devido aos múltiplos recomeços que levam sempre aos mesmos finais. Ainda que eu exclame mil vezes diante das circustâncias que me mobilizam "Desta vez é sério!", há uma voz, lá nos recônditos subterrâneos, que ri de mim histrionicamente, como se soubesse da fragilidade dos fatos e que tudo se modifica. Não é que eu deixe de vivenciar as histórias ou de me emocionar com elas. Vivo-as no momento em que acontecem, mas o fato de saber que me renderei a alguns encantos e sobreviverei aos consequentes desencantos produz no olhar a ironia própria de quem já conhece o final dos filmes, a despeito de todos os "Desta vez é sério!".

Ainda assim, espero ter salvação. Porque também sei que uma vida só se justifica quando o detentor dessa vida mergulha fundo nela, de olhos fechados, coração escancarado, sem querer saber onde ela vai dar. Queria me levar mais a sério. Alguma mágica haverá de salvar-me. Acredito em mágicas. Sério! (?)

Receita para manter o encantamento

Esta não é uma receita que deva ser racionalizada; ao contrário, é preciso recorrer à percepção, justamente para não quebrar o encanto. Não é uma tarefa fácil, nem há garantias de 100% de êxito. Mas, em alguns casos, pode funcionar. Então voilà!

Receita:

1 - Evitar nomear, pelo menos em definitivo, sentimentos ou sensações. Sempre acreditei que 'dar nome aos bois' não é uma boa medida, pois aprisiona e categoriza. Deixemos fluir o que não se nomeia. Quanto menos nomes, mais poder. À lixeira com o vernáculo, neste caso!

2 - Cada dia é um dia diferente. Olhar situações de modo sequencial pode criar expectativas exageradas. Expectativas geram ansiedades e a necessidade de querer sempre mais. Isso é por demais inquietante. Evolução não é algo necessariamente linear. Cada dia é um dia e todos os dias são diferentes. Perguntem só ao sol ou à lua.

3 - Não se repetir em demasia. Eu, particularmente, acho profundamente entediante o "Samba de uma Nota Só". Variar o tom é bom. Mudar os assuntos, o humor, o olhar, o tipo de música, as nuances. O ser humano é infinitamente rico e guarda dentro de si todas as cores da paleta, e essa plenitude de cor é capaz de pintar milhares de telas diferentes. E ainda: um pouco de sensibilidade para saber quando é a hora de mudar tons e tonalidades.

4 - Ter uma agenda imaginária. Melhor do que fazer é imaginar, planejar o fazer. Alguns projetos podem ser exequíveis, outros nem tanto. O importante é ter uma agenda lotada de possiblidades, que foram geradas no seio da imaginação, nas vertentes de um desejo aberto (imediato ou não).

5 - Oscilar entre o cômico e o sério, na medida certa. Isto é arte para poucos, exige percepção, conhecimento de si, do outro e do momento em questão. Alcançar a dosagem ideal entre esses dois extremos pode produzir um fluxo de comunicação não só delicioso como profundo. O riso é algo muito sério. Dores e reflexões também. E todos levam a uma espécie de cumplicidade tácita.

6 - Nada de excessos. Excessos assustam e se gastam rápido. E aí entram todos os tipos de excessos: carinho demais pode ser piegas, silêncio demais pode parecer descaso, carência demais (pelo menos na forma explícita) nos transforma em sumaríssimos chatos, erudição demais pode dar sono, brincadeira demais pode denotar inconsistência, agressividade demais afasta, críticas e elogios exaustivos também - até porque ninguém é totalmente bom ou ruim o tempo todo.

7 - Sem cobranças. Cobrar é o que há de pior no comportamento humano. Cobrar o quê? Nada que não chegue pelas vias do desejo livre tem valor.

8 - Esquecer o tempo. Não importa quanto tempo se passou desde a última vez que vimos outro, não importa quantos anos, meses, semanas, dias, horas, ficamos ou ficaremos distantes de quem queremos bem. Importa é que a afinidade seja sempre retomada do ponto onde parou. E isto é válido apenas para almas afins. Só com a supressão do tempo é possível imortalizar um sentimento.

9 - Saber usar as entrelinhas (e as linhas também). Saber ler e falar nas entrelinhas é um jogo excitante, sublime, e ainda exige alguma inteligência e arte. Porém, por tratar-se de mensagens cifradas muito intimistas, há momentos em que devemos recorrer à clareza das linhas. As linhas, com todas as letras e pingos, também têm seu valor e seu poder de impacto. Tudo é uma questão de momento. Além disso, nas entrelinhas, haverá sempre o risco da interpretação indevida. É preciso tomar cuidado.

10 - Nunca banalizar. Nada é banal quando nos relacionamos com alguém importante. Tudo faz sentido. Tudo oferece um sentido. Até o mais minúsculo dos detalhes. Uma espinha no rosto, uma gota de chuva, a intensidade da luz, a temperatura, objetos fora de lugar, um band-aid no dedo, até mesmo a cor da latinha de um refrigerante. Na verdade, nas relações mais consistentes, são os detalhes que ditam o ritmo - e geralmente assumem proporções gigantescas.

***

Poderia continuar a citar mais uma meia dúzia de ações (ou não ações), mas penso que esses dez passos já estão de bom tamanho. E, agora que cheguei ao fim, já começo a me arrepender de tê-los colocado aqui, e ainda no pobre formato de um manual. Por que me arrependo? Porque o grande barato é adivinhar segredos, intuir possibilidades. Assim, penitencio-me e volto ao passo nr. 1: Evitar Nomear. O encantamento é mágico. E magias não se definem...

Nota: não há neste texto qualquer pretensão ao monopólio da verdade, tudo é produto de minha ótica e vivência pessoal.

'Lixeiratura'

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Por que as histórias terminam? Para que outras se iniciem. E tudo é história, até a ausência de histórias. Algumas são marcantes, outras marcadas. Algumas são banais, outras legais. Algumas são extensas, outras intensas. Algumas inesquecíveis, outras impossíveis. Algumas são doidas, outras são doídas. Tudo é história. Que importa se a próxima será melhor ou pior? Memorável ou medíocre? Que importa o final? Importa é ir virando as páginas e se fazer contar, ainda que lancemos a vida numa grande "lixeiratura".

Pão e circo

Eu não tenho a obrigação de ser feliz. Sou feliz quando posso, não quando devo. Mas parece que vivem a cobrar da gente o tempo todo riso e diversão. É, é bom sim. É muito bom. Só que nem sempre é possível. Alegria não é algo que se retira de um caixa eletrônico 24h. E não estou em nenhum picadeiro com a missão de animar platéias. Que mania doentia de felicidade os humanos têm! Será que precisam disso pra se distrairem de si próprios e aliviarem suas histórias? Mas às custas de terceiros? Oh, não... Eu não vou me prestar a esse papel de "inocente inútil" de dar pão e circo para o povo quando também sinto fome, outras fomes. Deixem-me aqui com meu momento, com meus escafandrismos, minhas reflexões, saudades, certezas e incertezas. Deixem-me gostar também das profundezas. Quando terminar o ciclo e mudar a estação, eu divirto o grande público. Sou boa nisso quando posso. Mas agora não. Preciso cumprir minha própria existência, preciso não me trair. Deixemos o circo para uma outra hora e o pão também. Há ventos que sopram e mudam as paisagens. E não há como impedir o vento de ventar. Da mesma forma que não há como deter o sol, que deve chegar, deve chegar a qualquer momento...

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Hoje seria aniversário de minha mãe. Mas ela se foi de forma tão prematura e repentina, que eu fiquei com uma infinidade de "seria", sem saber até hoje o que fazer com esta flexão verbal.

Lágrimas de verão

Quarenta graus ao sol e eu reajo pelos poros, que perspiram como se o suor fossem lágrimas vertidas pelo corpo inteiro, lágrimas de verão... Todos parecem felizes à minha volta, realçados pelo excesso de luz e pelas alegrias carnavalescas. Ando na contramão, distante de tudo o que parece oferecer prazer a esse mundo de gente em férias. Aceno-lhes fingindo ser um deles, para não ter que explicar por que não compartilho dessa felicidade nômade e banal. Seria muito complicado para os dias de verão, uma nota semitonada e perdida em seus allegros. Afinal, eles ficam tão bonitos quando bronzeados e sorridentes, quando alienados de suas dores.

"Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim... "

Melhor assim. Suo discretamente minhas lágrimas de verão.


Devastadoras calmarias

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É... As histórias esfriam e viram poeira, não nos iludamos. Quem quiser manter sua história de amor viva, terá de conquistar diariamente o objeto de seu desejo. Matar um leão por dia, reinventar-se, reafirmar-se, inscrever sua presença no outro constante e consistentemente. Do contrário, nada feito. O fim é inevitável, questão de tempo. É preciso movimento. Ventos soprando, nuvens passando, paisagens se modificando, palavras se multiplicando, ruídos se fazendo ouvir. É preciso qualquer ação, é preciso "fazer". Porque o "não fazer" é ainda pior do que o "fazer contra". De forma que, até um pequeno pugilato diário mais garante a sobrevivência de uma relação do que o marasmo disfarçado de águas tranquilas. Ação e AlimentAção. Sempre. O que parece silenciosamente acomodado, por muitas vezes, pode ser um campo minado, prestes a explodir, sem o benefício, sequer, de um sinal de alerta, que nos permita o tempo da preparação ou da correção.

Bela Adormecida pós-moderna

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Era uma vez uma princesa urbana, sem reino e sem súditos. Como nos contos pós-modernos não há bruxas perversas ou poções mágicas, a nossa heroína não foi amaldiçoada por nenhuma velha feia com verruga no nariz. Mas havia um príncipe. Ela encontrou um príncipe, que não galopava em cavalos brancos, não fazia o gênero garboso, nem muito menos era um modelo de virtude. Ao contrário, o nobre rapaz era dado a crises existenciais e tomava lá seus pileques. Foram felizes por algum tempo, graças a uma ajudazinha da fluoxetina. O príncipe sempre voltava para a sua amada princesa depois de épicas lutas ou noitadas na Lapa. Até que um dia partiu e não mais voltou. A princesa esperava em vão todas as noites na varanda por seu amado. Nenhum recado no celular turbinado e multitarefa, nenhum email, nenhuma notícia sequer. Cansada de esperar, adormeceu para não sofrer. A fluoxetina já nao resolvia, porque ela se recusava a ser feliz sem ele. Adormeceu para não ver nada crescer ou se modificar à ausência de seu príncipe. Adormeceu sua alma e se trancou no pequeno castelo, ao som melancólico do Cold Play. Adormeceu, à espera de ser despertada um dia pelo beijo de amor que lhe devolveria a vida. Se o príncipe voltou e despertou a Bela ou não, fica por conta do leitor. Não sou eu que vou empatar o final feliz de ninguém. Caso optem pelo final feliz, tomem cuidado com o batom da princesa, na hora do beijo, para não estragar a fotografia impecavelmente editada em Photoshop.

A esp'rança é um dever do sentimento

A esp'rança é um dever do sentimento (Fernando Pessoa)

Não costumo dar tiros mortais na esperança alheia. Por mais inexequível que uma situação me pareça, por mais que ouça histórias de realizações improváveis, não tenho o direito de apagar a última chama de quem pouco tem ao que se apegar. Longe de mim deixar alguém na total escuridão. O escuro é um lugar feio, onde muitos só sobrevivem a partir de uma última fresta de luz - a esperança -, independentemente de futuras concretizações.

A esperança é o alimento do desesperado, a possibilidade de fortalecimento dos temporariamente frágeis, uma filha que as incertezas devastadoras são levadas a gerar para que a alma não morra.
Assim, quando estou diante algum coração aflito e quebrado, sempre assinalo que a força interior é capaz de modificar cenários e enredos, até mesmo os mais imobilizados. Sempre aceno com as possibilidades apaziguadoras que moram no futuro.

Se esta esperança que não matei vai morrer ali adiante, se vai se transformar em realidade, ninguém sabe. Mas não é o mais importante. O importante é que sua ausência, num momento indevido, torna impossível o sossego da alma. Sem ela, fica impossível caminhar. E é preciso caminhar.

E, quem sabe se, ao caminhar, novas e melhores histórias não vão tomando o lugar daquelas outras que não se realizaram? Quem sabe se, ao caminhar, a esperança não cumpra o seu papel transformador, e aquilo que parecia impossível possa ser tocado? Quem sabe? O importante é que, de uma forma ou de outra, teremos sido salvos por ela, a esperança, que é um dever do sentimento. Obrigada por esta, Fernando Pessoa!

É simples!




É preciso revolver todos os resíduos, desconstruir mundos, sofrer tudo, desprocessar ideias, tocar na loucura, para redescobrir o sentido da vida nas simplicidades e na linguagem dos puros. É simples: abrir mão das coisas de pensar em benefício das coisas de sentir. E, se houver medo de sentir, é porque não se abriu mão das coisas de pensar.

Nos meus dias, tudo o que vejo é um medo enorme - quase sempre inconfesso - das vontades simples. Parece que conviver com as simplicidades tornou-se um movimento inviável. Mas hoje, na contramão das tendências, ou talvez por cansaço, eu simplesmente, insisto nelas...


Quando se abre mão de um sonho?

Quando se abre mão de um sonho?

Os medrosos dirão: - Quando há possibilidade de se transformar o sonho em realidade, que sempre implica o duplo risco da perda do sonho e da realidade sonhada, sem oferecer garantias.

Os aventureiros: - Nunca! É pagar para ver. Se não der certo, muda-se de sonho. E, de sonho em sonho, vamos trapaceando a realidade.

Os lunáticos: - Sonho? Que sonho? - uma vez que moram em suas permanentes fantasias.

Os céticos: - Não acreditamos em sonhos.

Os românticos: - Acreditamos em um final feliz, no amor e na justiça! Nunca abriremos mão de sonhar.

Os pessimistas: - Quando esse sonho pode se transformar em pesadelo, o que é muito comum.

Os otimistas: - O impossível demora mais um pouco.

Os práticos: - Quando a previsão para a realização desse sonho exceder seu prazo-limite, trazendo prejuízos reais.

Os egoístas: - Atropelaremos todos os que se interpuserem no caminho de nossos sonhos!

Os insensatos: - Na hora da colisão!

Os sensatos: - Quando há grandes possibilidades de esse sonho vir a nos ferir.

Os altruístas: - Quando há uma possibilidade de esse sonho vir a ferir os personagens do nosso afeto.

Porém, apesar das divergências, haverá sempre o mesmo ponto em comum: todos sonham, até os céticos.


Mas eu não nasci para competir...

Lembro que, quando adolescente, nunca me sentia bem fazendo esportes, onde alguém tinha de perder para que eu ganhasse. Era obrigatório o vôlei nas aulas de Educação Física. E eu detestava aquilo. E continuo a detestar. Ao contrário do que prega a sociedade dos nossos dias, não consigo me sentir tentada à prática de atividades competitivas. Faço aqui uma ressalva, no que tange ao meu papel como torcedora do Flamengo. Aí é um caso à parte, porque sou flamenguista por razões puramente sentimentais. Gosto mais da paixão rubro-negra do que do jogo em si. Mas, voltando à questão da competição, muito cedo percebi que não corria em minhas artérias o sangue da disputa. Se tenho de jogar contra alguém ou contra algo para conseguir triunfar, já perco o tesão. Sou amante das gerações espontâneas e naturais. Nada de forçar a natureza ou de humilhar o adversário. Até porque não me agrada a ideia de ter adversários.

Mas aí vem um e desenterra Darwin, argumentando que a sociedade apenas reproduz o processo de seleção natural: os melhores sobrevivem. Agora vejamos: melhores em quê? Na compleição física, orgânica? Do ponto de vista biológico, faz sentido. Mas do ponto de vista humanístico, tenho muitas dúvidas sobre se é necessário mesmo competir para sobreviver. Não gosto de ver a vida sob a ótica do jogo.

Esse verbo competir é tão sem-vergonha que o ouvido chega a estranhar sua conjugação na primeira pessoa: "eu compito". Soa terrivelmente mal. Mas é tudo o que pregam lá fora. É a mídia, a cultura, os profissionais da saúde, os centros estéticos, as academias, as instituições financeiras, o mercado de trabalho, a tecnologia, até o amor. Todos dizem: competir!

Não gosto. Não gosto de competir porque não gosto da ideia de que alguém se derrota com as minhas vitórias. Gosto mesmo é do empate. Eu não sei se vale a pena ser um "vencedor" num mundo tão inóspito e tão desigual de oportunidades. Questiono quem é o perdedor e quem é o vencedor nessa loucura padronizada e imposta. Vamos tentar o raciocínio inverso: será que perdedor não seria aquele que precisa dar nó em pingo d'água, fazer das tripas coração, sacrificar o sossego e a paz para "provar que é bom e merece ser amado"?

Pois então... Além de eu ter essa preguiça contemplativa básica, de ser aversa às adrenalinas das disputas, não vou competir com ninguém para ser amada, valorizada e blá blá blá. Tá bom do meu jeito, a vida que tenho me basta. Estou em paz comigo assim, evoluindo sem precisar competir. Superando apenas os meus próprios limites, mas sem fazer de mim a minha própria adversária.

O tempo, esse implacável

Há anos atrás, uma frase chamou minha atenção, no livro Mutações, de Liv Ulmann:
"Por que o tempo é tão implacável, roubando-nos as oportunidades, se não somos suficientemente rápidos para agarrá-las?"
Ah, o tempo, esse maldito!... Sempre roubando a cena. Mais do que isso, roubando-nos de nós mesmos. A frase soou como uma pancada e ecoa até hoje em cada um de meus movimentos, mas, principalmente, em cada ausência deles. Há mesmo esse "timing" nas 'acontecências' que deve ser observado. Se nos precipitamos, corremos o risco de errar e assustar. Se demoramos demais, o tempo das realizações pode escapar, esfriando a vida e os desejos. Esse "feeling" para o tempo certo do acontecer é um cabo de alta tensão no meio do escuro.

Quantas histórias ficaram perdidas ou deixaram de ser contadas? Quantas mágicas não foram quebradas? Quanto não se deixou de viver, dizer ou ser? Tudo por causa dele, do tempo, do maldito. Mas os humanos não aprendem, sobretudo os emocionalmente afetados. Ou avançam demais, tentando ultrapassar o tempo, ou procrastinam todos os gestos para não errá-los, e aí são ultrapassados por ele.

Por falar nisso, que dia é hoje? Que horas são? Será que já é hora? Será que já passou da hora? É tarde demais? Ainda é cedo?

A respeito do tema, veio-me à lembrança agora, um poeminha que fiz, num tempo em que respeitava a poesia - sim, porque hoje brigo com ela. Acho que ele ilustra bem essa ideia do "tempo exato". Seus últimos versos eram:

Dói, desejo meu...
Dói a desejar
A possibilidade do encontro,
Que virá, ou não virá.
- Não importa.
Pois que o tempo do encontro
Chega sempre antes ou depois
Do tempo de desejar.

Ainda...

Por que será que desconfio de tudo? Das melhores às piores intenções? Dos discursos bem e mal construídos? Da poesia em profusão? Das prosas e das rosas? Por que não me deixo convencer assim tão fácil como fazem os ingênuos? Será que não restou qualquer resíduo de ingenuidade em mim? Mas crianças também desconfiam, desconfiam de tudo o que não é verdade... Então, ainda posso ser ingênua. Nem tudo está perdido.

Por que a descrença? Simples. Porque já acreditei demais, Porque já acreditei em tudo. E tudo no que acreditei não passou de blefes ocasionais no jogo da vida. Conheci o jogo e suas regras. Mas não quero mais jogar. Há muito não quero mais jogar. Não, agora não. Melhor ficar com meu ceticismo do que acreditar nos jogos e no que se consegue com eles.

O ceticismo é uma doença da alma, por desnutrição, que só amor genuíno pode curar. Amor é uma substância produzida por nós mesmos, só que seu princípio ativo depende de depositários da mesma substância.

Mas ora vejam só... Acabo de perceber que a descrença não é plena. Ainda acredito no amor.

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